quarta-feira, outubro 20, 2010

Um Filme Iraquiano Ganha o Prêmio do Melhor Filme num Festival em Milão

Abd Al-Jabir Al-Itabi

Sábado: 09 de outubro de 2010. Às 21h07 GMT

Abd Al-Jabir Al-Itabi, de Bagdá: As boas noticias que chegaram da cidade italiana Milão para o cinema iraquiano, que os jovens cineastas lutam para devolvê-la ao foco das atenções, o sucesso distinto do diretor iraquiano Haidar Rashid com seu filme al-Mihnna ( O Dilema) o qual ganhou o prêmio do melhor filme de ficção de longa metragem no festival ( I’ve Seen Films) com seu organizador e presidente o holandês e ator mundial Rutger Hauer. O filme iraquiano foi escolhido para esse prêmio pelo comitê internacional que abrangeu vários personagens cinematográficos conhecidos como o diretor Anton Corbijn, a estrela Miranda Richardson e o diretor Italiano Roberto Faenza e também o próprio Rutger Hauer.

A agência de noticia Italiana (AGI) transmitiu as palavras de Hauer quando entregava o prêmio para o diretor Haidar Rashid, ao dizer “ Estou muito feliz porque o Haidar ganhou este prêmio. O filme al-Mihnna é o filme que eu mesmo gostaria de produzir” . Ele notou que o “Haidar é um jovem da nova geração que nós esperamos muito dele no futuro, e sem dúvida a comissão juramentada levou a questão da importância desse trabalho dele”.

Enquanto o presidente artístico do festival, Giancarlo Zappoli disse, “Estamos orgulhosos por apresentar esse jovem talentoso, e também por apresentar a primeira produção cinematográfica em parceria entre o Iraque e a Itália”. Ele acrescentou dizendo, “A importância desse filme é pelo fato de mostra a tragédia do Iraque e os sofrimentos do exílio sem o uso de qualquer matéria do arquivo das longas guerras desse país. Ele conseguiu através da história de um homem que vive perdido em uma cidade grande e barulhenta como Londres para mostrar a tragédia de um povo inteiro.

A agência italiana de notícia transmitiu a felicidade e os agradecimentos de Haidar pelo o prêmio ao dizer, “A escolha do nosso filme para participar desse festival é um prêmio em si. Mas receber o prêmio de melhor filme é um resultado de muito trabalho e a grande preocupação que mostrávamos através da imagem do exílio dos iraquianos em que nossos pais viveram e nos hoje estamos vivendo como a segunda geração que nasceu longe da pátria”.

O filme foi dedicado pelo o diretor à memória do marte o escritor, o ilustre, o iraquiano Kamil al-Shaia’, que foi assassinado em Bagdá em 23 de augusto de 2008. Os acontecimentos estão na cidade de Londres cercada pela neblina. Ele mostra a esperança e antecipação, que são características da segunda geração dos iraquianos que nasceram nas terras estrangeiras distantes, e através uma crise de um escritor jovem que tinha acabado de escrever seu primeiro romance e estava à procura de uma editora para publicá-lo. Isso acontece quando o pai dele é sequestrado e assassinado em Bagdá pelas ganges armadas terroristas. Seu pai é um professor universitário iraquiano, que morou no exterior por vinte e cinco anos e depois desses anos voltou para o Iraque para participar da reconstrução do país. Mas ele é seqüestrado e assassinado semanas depois do seu retorno.

O saudoso Kamil al-Shaia’, como o diretor disse, acompanhou o nascimento do filme e desde seus primeiros passos para escrever o cenário, o que fez desse filme como se fosse o livro do seu martírio, que ele esperava e em mais de uma carta enviada para o seu filho Aliasm nascido em Bruxelas.

O filme tinha ganhado o segundo prêmio no festival al-Khalij em Dubai na sua ultima sessão em junho desse ano. Também foi exibido no festival do cinema (Digital Soil) na Coréia do Sul em augosto do ano passado.

Fonte: ELAPH

http://www.elaph.com/Web/Culture/2010/10/602611.html?entry=homepagemainmiddle

http://www.icfilms.org/

Tradução do árabe: Khalid Tailche

quinta-feira, setembro 09, 2010

5ª Mostra Mundo Árabe de Cinema exibirá 14 filmes em São Paulo

CÂMERAS ABERTAS

(Open Shutters Iraq, 2009, Síria/Reino Unido, cor, 103’, DigiBeta)
Direção: Maysoon Pachachi
Gênero: documentário

Um grupo de mulheres de cinco cidades do Iraque viajam a Damasco para participar de um projeto sobre fotografia chamado “Open Shutters Iraque”. Por um mês, vivem e trabalham juntas em um bairro tradicional na velha cidade. Aprendem o básico sobre o processo de fotografar, dividem suas histórias de infância, as dificuldades, os amores, as traições, nascimentos e mortes, guerras, violências e os atos dos dias de resistência. Ao final, elas compartilham os desafios de suas vidas que formam o tecido social no Iraque atual.

Fonte: ICArabe

http://icarabe.provisorio.ws/noticias/5a-mostra-mundo-arabe-de-cinema-exibira-14-filmes-em-sao-paulo

segunda-feira, agosto 23, 2010

Os Iraquianos e as promessas da Casa Branca

12/08/2010 Por: Khalid Tailche

Algo que me chamou a atenção foi a declaração do presidente americano Barack Obama sobre a retirada das forças americanas do Iraque depois de sete anos de ocupação. Essa retirada porém não vai ser total, mas se trata de redução de 150 mil homens para 50 mil. O interessante é a forma como essas declarações são normalmente colocadas, como se fosse uma doação. Muita gente achava que, com a queda do ex-regime e as promessas americanas de democratizar o país, poderia haver esperança para um povo cansado das guerras e do desperdício da sua renda, já que o Iraque é um dos maiores produtores de petróleo do mundo.

Mas, o que o povo não esperava, era a continuação da mesma farsa de promessas, apenas com slogans novos. O ex-regime prometia glória e vitória aos iraquianos nas guerras, enquanto que as promessas do governo americano eram de democracia e de liberdade. Um olhar não especialista pode dizer hoje que o cidadão iraquiano não está preocupado com a glória e menos ainda com a democracia que chegou ao país em latas estadunidenses, contaminadas com diversos escândalos.
Essa ideia de democracia nasceu de uma inseminação artificial entre o governo norte-americano e a oposição iraquiana, que voltava para o país de origem depois de muitos anos em terras estrangeiras, de forma que não teria e não teve saúde para sobreviver à herança de uma nação com tantas feridas de ditadura, guerras, sanções econômicas, ocupações estrangeiras e conflitos internos.

Apesar disso, nesse teatro chamado Iraque a farsa continua e não pode parar. A declaração do presidente estadunidense veio apenas para cumprir sua promessa de campanha de encerrar as atividades militares no Iraque em agosto desse ano. Obama prometeu que, e a partir de agora, transformar as atividades militares no Iraque em compromisso “civil liderado pela diplomacia”. De acordo com ele, isso inclui apoiar e treinar as tropas iraquianas contra o terrorismo. As palavras de Obama são, sem dúvida, promissoras e cheias de esperança.
A situação atual do Iraque, mesmo nas imagens transmitidas pelas próprias agências de notícias americanas, não deixa espaço para otimismo. O país está mergulhando cada vez mais nas divisões e nos conflitos. Somente no mês de julho, 535 pessoas foram mortas tornando o mês com o maior número de vítimas desde 2008. A preocupação da Casa Branca é muito mais com a preservação da vida dos soldados do que com a soberania do Iraque, afinal o país é um ponto estratégico em uma região de muita tensão.

Os americanos estão deixando o país talvez militarmente, mas sua presença política está muito longe para se encerrar. O símbolo dessa dominação pode ser notado pela construção da maior embaixada americana do mundo na capital Bagdá. Essa colonização pré-moderna, se podemos chamá-la assim, não precisa mais ser militar, basta dominar politicamente e controlar a riqueza de um país, e quem sabe, até os próprios sonhos do seu povo

Fonte: ICARABE http://icarabe.provisorio.ws/artigos/os-iraquianos-e-as-promessas-da-casa-branca

sexta-feira, julho 30, 2010

Há uma esperança para o Iraque?

Por: Mohamed AL-Dileimi / Um escritor e pesquisador iraquiano

Quinta-feira 22 de julho de 2010. As 2h09 GMT

Quando o homem que estava sentado ao meu lado no avião, o qual estava indo para um dos país do ocidente árabe, ficou sabendo que eu sou do Iraque, ele me perguntou e mesmo antes de saber o meu nome, endereço, minha profissão ou até mesmo sem qualquer introdução: Há ainda uma esperança para o Iraque? Eu não estranhei a pergunta do meu vizinho no avião que gosta do meu país, e que ia me deixar na próxima parada, sabendo que o Iraque, como um país que se tornou o maior depósito humano de orfeões e que ele está se metendo em uma novela trágica e sua fortuna e riqueza nacional e a maneira que está sendo administrada se tornaram um exemplo vivo da capacidade do poder de corromper e tornar-se corrupto. Se não, como podemos explicar o enigma da transformação de um membro do governo que se tornou em um período curtíssimo em um milionário e investidor, e ele que vivia anos atrás no seguro social dado para ele pelo um país como refugiado?

Como pode, um país que deu para o mundo a escrita estar atualmente na beira de colapso em todos os sentidos, não há serviços públicos e a maioria do povo está tomando água não tratada, não há eletricidade, educação nem saúde. O mais importante de tudo que o país está sem segurança que representa a base para a construção, progresso e a vida em todos os sentidos. Uma constituição fraca que muitos políticos agarram com a desculpa de que sua existência é melhor de que nada, e apesar de que esta constituição se tornou agora ausente e todos os políticos estão dizendo que o país está passando por uma situação de ausência obrigatória da cobertura constitucional, depois de ultrapassar as datas constitucionais para a formação e a declaração do novo governo iraquiano, de acordo com os resultados das últimas eleições parlamentais. O Parlamento também não faz nada e o presidente da república está perguntando a corte suprema sobre a legalidade de continuar no seu cargo presidencial ao mesmo tempo em que o seu governo insiste que ele tem autoridade total e recusa ser chamada de um governo burocrático pois esta discrição diminui sua autoridade. Os blocos parlamentares estão em uma batalha para ganhar a vantagem de governar enquanto seu povo está sendo esmagado pelo ciclone de pobreza, terror, desemprego e o mais perigoso ainda a ausência de esperança no horizonte.

Todas as nações vivas ao longo da historia conseguiram libertar suas capacidades e alcançou seus objetivos quando enxergaram uma abertura de esperança para se direcionar ao trabalho criativo e não se manter sonhando com as falsas ilusões que não carregam nada além de fraude. Quem pode, na atual situação do Iraque, falar da democracia e o novo processo político que não trouxe nada além de mais bombas, a morte constante, a folga de inferno para os países estrangeiros e um corrupção financeira que nunca aconteceu na história de nenhum país o que chegou de colocar um preço pra cada cargo de trabalho de acordo co a renda e os benefícios esperados? As poluições, a fumaça e barulho de milhares de geradores da eletricidade estão sufocando as ruas da capital Bagdá que não tem fim e que estão cheias deles junto com o fluxo de carros e das sirenes das escoltas dos funcionários de governo.

Tudo no Iraque, onde Bagdá era uma capital deslumbrante na sua beleza, segurança e limpeza se tornaram de cima para baixo. Há pilhas de lixo e bandos de cachorros abandonados, uma confusão total. Bilhões desapareçam e incêndios nos escritórios do governo e mais tarde é revelado que o fogo aconteceu nos arquivos ou nos setores financeiros e tesoiras nos prédios desses escritórios ou ministérios. Os iraquianos estão fugindo tanto para dentro quanto para fora do seu país. O que está acontecendo no Iraque? É um pergunta lógica ou até não lógica porque os eventos atuais no Iraque estão acontecendo de uma forma que não segue em uma lógica. Será que isso é o fim de um país que está encaminhando para a divisão e de se perder ou um parto difícil que dará a luz para um projeto nacional que abranja a ambições e as esperanças do povo? Será que temos ainda um esperança de acordar um dia para ver a imagem do Iraque carregando uma luz no fim do túnel?

Talvez isso aconteça, pois quem tem fé é otimista por natureza, e na terra do Iraque, nasceu uma das primeiras civilizações do mundo e onde nasceu o Profeta Abraão, o pai de todos os profetas, e nas berras do seus dois rios foram construídas as primeiras cidades e foi escrito o primeiro registro da lei no mundo. E em Bagdá, o capital do Al-Rashid e do Al-Ma’mun que construiu a primeira escola de tradução além de muito mais. Será que se o povo iraquiano se movimentar em um bloco só e de uma forma pacífica para dizer chega para os tiranos e aqueles que estão brincando com sua existência e seu destino? Será que naquele momento eu poderia responder para meu vizinho árabe no avião que estava indo para o ocidente árabe: sim, ainda há uma esperança no Iraque?
Tradução do árabe: Khalid Tailche

quarta-feira, junho 30, 2010

Os Sítios Arqueológicos do Iraque Estão Expostos às Novas Operações de Saques

Devido a indiferença e a burocracia e pela ausência da fiscalização.

Por: Ashraf Abo-Jalala / Sabado 26 de junho de 2010. 23hs30 GMT

Enquanto os saques das relíquias do Iraque depois da invasão americana de 2003 foi causado pela confusão pós-invasão, a indiferença e a burocracia e a ausência da proteção adequada são as razões dos novos furtos que estão acontecendo no país.

Novas operações de saque das antigas relíquias iraquianas aconteceram ultimamente. De acordo com o jornal The New York Times esses roubos não aconteceram desta vez por causa da confusão que seguiu a invasão americana do Iraque em 2003, mas pela indiferença e a burocracia relacionada ao novo governo iraquiano.
A revista anotou de que milhares de sítios arqueológicos, o que inclui os tesouros mais antigos da civilização, mantiveram-se sem proteção no sul do Iraque, de acordo com as declarações dos responsáveis das relíquias iraquianas. O jornal The New York Times mostrou, em um assunto relacionado, que uma nova força da polícia tomou o lugar das tropas americanas que foram retiradas em 2008. O número dos oficiais dessa força seria de cinco mil oficiais, enquanto atualmente o número não ultrapassa de 106, o que é suficiente, de acordo com o jornal, para proteger sua sede em um palácio da época dos otomanos, o qual se localiza no lado direito da costa do Rio Tigres em Bagdá.
O líder dessa força, e com tom de descontentamento, disse “ Eu fico sentado atrás do meu escritório e protejo os sítios arqueológicos, com que? Com palavras?”. O jornal confirma que a falha em formar e usar essa força, e os frequentes casos de frutos, reflete uma situação de fraqueza maior de que a lei e as instituições do governo iraquiano, enquanto o exército americano continua se retirando deixando atrás dele uma herança cheia encoberta pelo mistério.
Em relação da situação das antigas relíquias do Iraque, o jornal mostrou que o prejuízo é representado em um custo não calculado de relíquias das antigas civilizações da Mesopotâmia, essa história descrita pelos líderes do Iraque como uma parte das pesquisas e turismo arqueológico no Iraque, e também parte da futura grandeza do país. O jornal transmitiu as palavras do Presidente do Instituto das Relíquias e Patrimônio, Qais Hassan Rashid que disse “ aqueles que tomam as decisões , falam muito sobre a história no seus discursos e conferências ( apontando para a recém crise da nova força da polícia), mas eles fazem nada”.
Apesar de que as operações de saques não estão acontecendo atualmente da mesma forma dos anos que seguiram as invasões americanas em 2003, os responsáveis e os arqueólogos foram avisados de dezenas de novas operações de escavações ao logo do ano passado, junto às retiradas das forças americanas que protegia junto com as forças da polícia iraquiana muitos desses lugares que estão sendo furtados pelos ladrões novamente. Os policiais Arqueológicos disse que eles não tem recursos necessários para preservar até mesmo os arquivos de furto. De acordo com o ex- fiscal de relíquias na província de Zi Qar, pratos, vasos e outras peças foram destruídas e abandonados pelos ladrões que procuravam o ouro, jóias e as tabelas e cilindros come escrita cuneiforme que são fáceis para contrabandear e vender.
Hussein Rashid acrescentou, que o pedido da Comissão, como ele como seu presidente, para obter 16 milhões de dólares em 2010 foi reduzido para 2.5 milhões de dólares. Rashid reclamou também de que os ladrões em algumas previdências no sul como Zi Qar e Wassit estão trabalhando junto com as forças que executam a lei. Ele acrescentou em relação a isso dizendo que “ a mão da lei não consegue alcançá-los”.

Fonte: ELAPH: http://www.elaph.com/Web/news/2010/6/573932.html
Tradução do árabe: Khalid Tailche

segunda-feira, abril 12, 2010

O Iraque anuncia sua entrada na Iniciativa Global para o Combate ao Terrorismo Nuclear

A Proibição das Atividades Nucleares Ilegais e Combate ao Terrorismo

Usama AL-Mahdi
Segunda-feira, dia 5 de abril de 2010. Às 15h00 GMT.

O Iraque entrou em acordo Internacional para combater o terrorismo nuclear adotado pelas Nações Unidas, como paço para se juntar a comunidade internacional e a todos os acordos que confirma sua ausência a quaisquer atividades nucleares por fins não pacíficos.


Londres: O Iraque, que foi acusado, através de relatos anteriores, de possuir armas nucleares de destruição em massa, acusação usada como justificativa para atacá-lo em 2003, declarou filiar-se ao tratado internacional de combate ao terrorismo nuclear adotado pelas Nações Unidas. Enfatizando que esta participação oferecerá segurança para as cidades e a sociedade contra os efeitos de radiação e suas causas e para manter a paz e segurança internacionais e enfatizar as relações com os países visinhos e as relações de amizade e colaboração entre todos os países para combater e reprimir o terrorismo nuclear e diminuir o crescimento das atividades terroristas.

Ali Al-Dabagh,o porta voz oficial do governo iraquiano, disse que o Conselho de Ministros do Iraque decideu aceitar o projeto de lei para que a República do Iraque faça parte da Iniciativa Global para o Combate ao Terrorismo Nuclear aplicada pelas Nações Unidas, indicando em uma declaração escrita, cuja ELAPH teve uma copia dela hoje, de que aceitar o projeto de lei de se juntar a República do Iraque ao tratado internacional de combater ao terrorismo nuclear vem de acordo com a direção do governo em cercar os danos que podem surgir devido ao terrorismo nuclear e suas consequências. A responsabilidade para decretar as leis de combater aqueles que causam este tipo de terrorismo será uma cerca de segurança para as cidades e a sociedade contra os efeitos nucleares e seus autores.

Al-Dabagh acrescentou que o tratado pretende realizar os objetivos das Nações Unidas e seus princípios em manter a paz e a segurança internacional e enfatizar as relações com os países vizinhos e as relações de amizade e colaboração entre os demais em combater e restringir o terrorismo nuclear e acabar com o crescimento das atividades terroristas.

Al-Dabagh explicou que o tratado internacional para combater o terrorismo nuclear vem de acordo com a decisão da Comissão das Nações Unidas em 17 de dezembro de 1996 e que foi ativada pelo ONU em 13 de abril de 2005 e executada em 7 de julho de 2007. O Ministério da Segurança Nacional tinha pedido ao Conselho do Iraque para dar opinião sobre a entrada no tratado. O Conselho consequentemente o examinou e respondeu que todos os Ministérios da Defesa, do Interior e da Segurança Nacional apóiam a entrada no tratado.
Al-Dabagh explicou também que o Ministério de Ciência e Tecnologia do Iraque mostrou que a entrada nesse tratado abre novos horizontes de colaboração com os países membros na troca de informações e experiências técnicas. O tratado exige que todos os países do tratado façam o necessário para garantir que os crimes mencionados sejam considerados crimes pela lei Nacional de cada país, e que aqueles que cometem esses crimes sejam punidos de acordo com o tipo de perigo que esses crimes apresentam. Também legislar as leis Nacionais que não permitem justificar os crimes cobertos nesse tratado e cometidos por motivo político, filosófico ou de crença de forma alguma. Os países membros tem que colaborar em tomar todas as medidas possíveis e necessárias para banir as pessoas, grupos e as organizações nas suas regiões de praticar atos ilegais ou de apoiar ou incentivar a cometer estes tipos de crimes; e também de trocar todas as informações detalhadas que são confirmadas e de acordo com suas leis nacionais e manter as informações obtidas em sigilo. Os países membros informam o Secretario Geral das Nações Unidas sobre suas entidades responsáveis e sues setores de comunicações responsáveis para emitir e receber essas informações.

Al-Dabagh acrescentou que qualquer pessoa que resolve possuir ilegal e propositalmente materiais ou fabricar ou ter um instrumento radioativo com fins de assassinar ou causar danos corporais graves ou estragos nos bens ou na natureza cometerá crime. O uso do material radioativo, ou de um aparelho que transmite radiação, ou o uso de um estabelecimento nuclear ou danificá-lo em uma forma que pode emitir uma substancia radioativa que danifica os bens e o meio ambiente com motivos de obrigar uma pessoa física ou jurídica, ou uma organização internacional, ou um país a fazer algo ou não, será considerado crime. Também qualquer pessoa que participa como cúmplice num desses crimes será tratado como executor do crime, e será considerado criminoso também qualquer pessoa que organize ou oriente outros a praticar um desses crimes ou até se envolver em qualquer forma de trabalhar entre grupo de pessoas com o motivo de cometer um desses crimes. Todos os países farão o máximo para tomar as medidas adequadas com a finalidade de garantir a segurança dos depósitos radioativos segundo as orientações e procedimentos ligados a Agência Internacional de Energia Atómica.

Ele destacou também o caso de apreender em um país material ou instrumentos radioativos ou depositos nucleares ou encontrá-los depois de um dos crimes indicados, o país tomará as medidas para tornar o material e o aparelho radioativo inofencivos, de guardar qualquer material radioativo de acordo com os termos da Agência Internacional de Energia Atómica. No caso do material não pretencer a nenhum dos países membros, ou nehum dos seus cidadões ou pessoas residentes, ou não ter sido roubado ou obtido de forma ilegal, uma decisão especifica será tomada para lidar-se com o caso. Os países membros deverão pedir ajuda um ao outro para lidar com o material, o aparelho radioativo ou o estabelicimento cuclear, ou guardá-los com a condição de informar o presidente da Agência Internacional de Energia Atómica sobre a maneira da qual o material será tratado ou guardado.

O Iraque está tentando atualmente agrupar a comunidade internacional e todos os tratados que mostaram a ausencia do páis de qualquer atividade nuclear por fins não pacíficos. A Organização das Nações Unidadas tinha monitorado essas atividades nucleares bélicas durante a época do ex-regime, e que foi um dos motivos de coalisão mundial para entrar em guerra contra o Iraque e derrotá-lo em 2003, apesar que os fatos mostraram um exagero no medo do programa nuclear iraquiano, o que foi confirmado por expecialistas anteriores nas Nações Unidas mais tarde.

Os aviões Israelenses tinham bombardeado a Usina Nuclear de Tamuz, que foi construída com a ajuda da França no começo dos anos oitenta do século passado, o que acabou destruindo e paralisando suas atividades nuclear no Iraque seriamente desde aquela época.

Fonte: ELAPH
http://www.elaph.com/Web/news/2010/4/549400.html

Tradução do árabe: Khalid Tailche

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Diários de um Fantasma



Quando eu morri, no caminho para a sepultura, disseram para mim que minha vida, como um fantasma, seria maravilhosa, compensando a miséria que encontrei antes de morrer: “você dormirá o dia inteiro em sua confortável sepultura, onde poderá se mexer à vontade. Você estará livre da multidão, do trânsito e da miséria diária. Acordará no meio da noite e andará livremente em sua cidade, sem ser parado por alguém para pedir seu documento. Poderá atravessar a rua quando quiser, sem correr o risco de ser atropelado. Poderá infringir todas as leis e viajar para qualquer país sem visto. Não ficará com fome nem sede, tampouco sentirá frio ou calor. Ninguém o matará, pois já está morto. Se quiser, e isto é o que mais importa, poderá se vingar, finalmente, de seus inimigos. Sua aparição atormentará aqueles que roubaram seu dinheiro e mataram seus filhos. Você se divertirá perturbando-os de seu jeito e transformando as noites deles num verdadeiro inferno. Você entrará nas casas deles, quando quiser. Poderá assustar os filhos deles, fazendo-os molharem as camas. Será o mestre. Verá todos se ajoelharem como cachorros ou correrem para um psiquiatra sem contar a ninguém que eles viram um fantasma, para que não sejam considerados loucos. Todas as receitas que lhes derem e todos os remédios que tomarem não farão efeito. Satisfeito com seu poder, você voltará para sua sepultura antes do amanhecer, cantando sua música predileta e planejando a noite seguinte”.


Faz anos que estou vagando pelas ruas de minha cidade todas as noites. Ninguém olha para mim. Ninguém me teme, nem mesmo as crianças. A riqueza daqueles que me mataram multiplicou-se, e suas barrigas cresceram. Às vezes, eu me perco em suas grandes mansões, mas, geralmente, eu os vejo celebrando ao redor de suas mesas cheias de comida durante noites de muitas risadas. Eles não se preocupam quando eu entro ou quando eu fico por lá. Eu paro perto de suas camas e grito, com toda minha força, em seus ouvidos, mas não escuto nada além de seus roncos barulhentos, cada vez mais fortes. Somente seus cachorros me cumprimentam, às vezes, latindo ou abanando os rabos quando eu saio, durante as madrugadas, frustrado devido a meu fracasso.


A sepultura é bem menor do que eu imaginava. Eu não durmo há mais de um ano. Meu vizinho me aconselhou consultar um psiquiatra. Ele me disse que muita gente sofre nos primeiros anos. Depois, aceitam a realidade e o fato de que nós fomos enganados duas vezes. Amanhã, irei ao médico.


Sinan Antoon / Agosto de 2009

Tradução direta do árabe: Khalid Tailche

Revisão Literária:

Dra. Glauce Rocha

sábado, dezembro 05, 2009

Os muros do medo

O aniversário de 20 anos da queda do Muro de Berlim em novembro último me fez lembrar outros muros históricos. Desde a antiguidade, muitos foram símbolo de proteção contra perigo externo, como a grande Muralha da China. Ao mesmo tempo, os muros criaram o ambiente e ajudaram no desenvolvimento de cidades antigas
Com o tempo, os velhos muros desapareceram como forma de proteção, deixando no lugar os mapas modernos e suas divisões. As barreiras construídas na atualidade acompanham essa lógica e, diferentemente das antigas muralhas, são conhecidas por segregar, isolar e dividir mais do que proteger as cidades e seu povo. No mundo contemporâneo, os muros ganharam o apoio de equipamentos da alta tecnologia. São prisões ao ar livre que separam pessoas e as condenam a conviver isoladas umas das outras.
A chamada "cerca da separação" na Cisjordânia é um exemplo. Israel, sob a alegação de que sua construção visava impedir atentados suicidas, iniciou-a em 2002, na divisa com a cidade palestina de Qalqilia. São oito metros de altura em algumas partes e apenas uma abertura de seis metros para a passagem de pessoas e veículos, transformando a cidade em uma prisão. A construção foi condenada pela ONU (Organizações das Nações Unidas), e por artistas israelenses e palestinos chamados de “artistas sem barreiras”. Para protestar, eles fizeram grafites nos dois lados do mundo
Em Bagdá, o exército americano construiu vários muros com cerca de 3,5 metros de altura cada, circundando áreas chamadas de “oásis de segurança”. O objetivo foi isolar algumas partes da cidade de bairros mais violentos, em uma divisão sectária. O plano foi aceito pelo governo, mas o povo iraquiano se posicionou contrário a ser dividido por muros de concreto e forçado a atravessar postos militares nas ruas. Alguns artistas iraquianos reagiram da mesma forma que os palestinos e israelenses. Na tentativa de cobrir a face agressiva dos muros que cortavam a capital iraquiana Bagdá, eles fizeram pinturas nos muros. Neste ano, o governo iraquiano decidiu retirar as barreiras, o que foi antecipado pela última explosão de um ataque terrorista e mostrou a impotência de qualquer muro a não ser para segregar a população. O atentado deixou 45 pessoas mortas e 295 feridas.
Os muros de hoje são os fantasmas do passado, mas de má fama, por dividirem as pessoas. São a prova da falha humana no mundo atual, que tem dificuldade de lidar com seu próprio medo de aceitar o outro. Os novos muros se parecem mais com labirintos e criam uma sensação de perplexidade e impotência em um mundo considerado mais civilizado e globalizado. No entanto, o homem ainda reage de forma primitiva quando não consegue lidar com o próprio medo do outro. Para se proteger, ele volta para o local que sente mais segurança: entre as paredes da sua antiga caverna

Khalid Tailche

terça-feira, novembro 03, 2009

Teatro Iraquiano

Uma homenagem ao grupo da peça Saddaa ( Eco)
Al-Mahdi: O sucesso é uma vitória para a mulher e para o teatro iraquiano
Abd Al-Jaber Al-Atabi Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009 . 16:30:00 GMT.

De Bagdá, Abd Al-Jaber Al-Atabi: O Instituto do Cinema e Teatro organizou, na manhã da última terça-feira, no Teatro Nacional, uma homenagem à equipe da peça Saddaa (Eco). O grupo teve sua heroína, a jovem Bushra Isma’il, como ganhadora do prêmio de melhor atriz no Festival de Cairo para O Teatro Experimental, que se encerrou na ultima semana de outubro. A homenagem foi também para o ator Aziz Khaioon por sua longa trajetória teatral e trabalhos com flores e velas. Estiveram presentes à homenagem grupos de atores e jornalistas. Houve também uma coletiva de imprensa acompanhando a simples homenagem. Durante a coletiva, se percebia que o sangue dos mártires do domingo passado ainda estava fresco nas mentes dos participantes, como foi demonstrado pelos discursos.

No começo, o diretor geral do Instituto do Cinema e Teatro, Dr. Shafiq al-Mahdi, disse: “É esta grande instituição iraquiana que tem que devolver o teatro para a nossa vida. Aqui é o ponto dos artistas iraquianos. Quero dizer que todos nós estamos juntos como parceiros seja qual for a entidade. Nós somos mais avançados que os políticos iraquianos por construir uma nova civilização. Neste ano, assim como no ano passado, estamos recebendo um novo prêmio internacional no Festival de Cairo por nossa grande competência.

Neste ano, junto com Hatam, Bushra e Samar conseguimos entrar numa forte competição e ganhar. É uma vitória, por um lado para a corajosa mulher iraquiana Bushra que, apesar das dificuldades, levantou a bandeira iraquiana vencendo centenas de atrizes concorrentes, o que foi uma honra. Por outro lado, foi uma vitória para o teatro iraquiano. O ano de 2010 será o ano de uma volta bem forte do teatro iraquiano a vários lugares”. E acrescentou: “Nós fomos desafiados neste espetáculo com ataques não justificados devido à escolha da obra de um professor da Universidade da Basrah.

Al-Mahdi reconheceu também a importância da homenagem ao artista Aziz Khaioon ao dizer: “o segredo que o fez ser homenageado é a maravilhosa trajetória ao longo de 35 anos deste ator elegante e generoso, dono de uma carreira brilhante, que estamos celebrando com respeito e elogios. Aziz Khaioon se tornou um personagem público iraquiano por divulgar a claridade, a transparência, a honestidade e a beleza. A homenagem recebida no Festival do Cairo é mais uma vitória para o teatro iraquiano.”

O Dr.Hamid Majid Al-Jubouri comentou que o artista Aziz Khaioon foi quem o apresentou ao teatro e o ajudou. Khaioon foi o diretor da primeira peça que Al-Jubouri escreveu. Al-Jubouri disse: “ A peça Saddaa tem 25 anos de idade. Foi escrita em cinco páginas, mas quando Aziz a folheou encontrou nela muitas coisas que eu não tinha escrito. Eu a reescrevi até que ele se contentasse. A peça quase ganhou um prêmio quando participei de um festival, mas isso não aconteceu. Na ocasião, o grande artista Youssif El-Ani disse: “ Foi a única peça injustiçada”.
O artista Aziz Khaioon afirmou que: “O Festival do Cairo deve sua importância à qualidade. Foi uma grande chance para o Iraque participar deste festival e eu não estou surpreso com o resultado. Eu não digo isso como elogio, pois é assim que nós entendemos e conhecemos o Iraque, um país de pensamento iluminado, responsável e forte.
Ele acrescentou: “A participação iraquiana foi importante para o encontro entre os artistas árabes e mundiais. O Iraque chegou com seu visual, sua essência, grande carga de emoções e muita responsabilidade junto aos outros. Quero elogiar Hatim, Bushra e Samar. Este jovem cuja atuação recebeu de uma das examinadoras, uma americana, o seguinte elogio: “quando este jovem falava, meu coração disparava”. Me alegro quando me lembro do elogio. Esta distinção é uma medalha para mim. Nós devemos, sem dúvida, trabalhar juntos e não olhar para trás, nem para os patrocinadores nem para o governo. Esta é a sua terra e você precisa de qualquer forma trabalhar nela. Este prêmio não veio do nada. Estou muito otimista com o futuro.

A homenagem que recebo não é para mim, mas para Haqui El-Shibli, Ibrahim Jalal, Jasim El-Ubodi Badri Hassun Farid e As’ad Abd Al-Razaq. Também para meus professores que me apoiaram ao longo do caminho e me ensinaram a abrir meu coração para o mundo. Sem eles eu não poderia ter minhas asas e não seria o sujeito que eu sou hoje. Parte dessa homenagem também é para minha família que suportou todas as tempestades causadas por mim. Dedico àquele, o mais belo do todos nós, o Iraque, minha pátria, lar e fortuna, pois sem ele não existimos e nem existiremos. E para todo o sangue derramado.
O diretor Hatim Ouda, por seu vez, disse: “Não sei o que dizer e sobre o quê, depois da fala do nosso pai Shafiq Mahdi e do nosso outro pai Aziz Khaioon. Quero dizer que, se não fosse pelas nossas grandes tristezas, esta alegria não teria o mesmo sabor”. Ele acrescentou: “No Festival do Cairo eu percebi que o teatro iraquiano é avançado em todos os sentidos. Um teatro polêmico, persistente e moderno e que atinge vários ângulos, apesar da nossa fascinação por alguns espetáculos. Bushra Ismail disse: “Quero dizer só uma coisa. Dedico minha vitória ao povo iraquiano, ao teatro e a quem trabalha nele. Dedico também à minha família e àqueles que me parabenizaram”. O ator Samar agradeceu no seu discurso ao Instituto do Cinema e Teatro, além de todos os amigos que o apoiaram.

Depois da abertura, a equipe da peça recebeu vários jornalistas e artistas árabes para responder às perguntas. As palavras da Dra. Awatif Na’im marcaram o fim da homenagem: “Há alguns dias, alguém perguntou para um dos políticos: ‘O que o senhor acha do teatro iraquiano?’ Então, ele respondeu: ‘ Mas há um teatro iraquiano?’ Nos artistas precisamos amar uns aos outros e respeitar nossa produção. Isto sim é sinal de que o Iraque está vivo”. Ela disse também: “Chega de hipocrisia, de reclusão e de nos escondermos atrás das cenas. Precisamos ser verdadeiros para proteger nossa pátria, o Iraque, na esperança de novos anos de colheita de prêmios. Precisamos mostrar o tamanho do Iraque”.

Tradução : Khalid Tailche
Fonte: ELAPH.
http://www.elaph.com/Web/Culture/2009/10/497688.htm

quarta-feira, setembro 09, 2009

Um olhar iraquiano sobre Bagdá

Ana Maria Barbour

Sinan Antoon nasceu em Bagdá, em 1967, onde cresceu e estudou Literatura Inglesa, formando-se aos 23 anos, em 1990. Assim como milhares de iraquiano, ele e sua família deixaram o país em decorrência da Guerra Golfo e imigraram, em 1991, para os Estados Unidos da América. No país estrangeiro Antoon aprofundou seus estudos e pesquisas em Literatura Árabe com um mestrado na Universidade de Georgetown (1995) e depois adquirindo o título de PhD, por Harvard (2006). Em 2003, o Iraque voltou a ocupar as páginas dos jornais de todo o mundo com a queda de Saddam Hussein e a invasão estadunidense. Frustrado e indignado com a forma como seu país e seu povo estavam sendo retratados na mídia norte-americana, Antoon voltou, após doze anos, para sua terra natal com a intenção de produzir um documentário que revelasse as diversas faces e vozes do povo iraquiano, que contasse histórias de pessoas e seus sofrimentos sob a ditadura e a ocupação. Desta incrível experiência nasceu o longa-metragem Sobre Bagdá, finalizado em 2004 e exibido nesta 4ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. Como escritor, Antoon publicou, entre outras coisas, a coleção de poemas The Baghdad Blues (Harbor Mountain Press, 2007) e a novela, I'jaam: An Iraqi Rhapsody (City Lights, 2007), traduzida para alemão, norueguês, italiano e português. No Brasil, o livro foi lançado com o título Morrer em Bagdá (Editora Globo). O que você pensou quando deixou seu país, em 1991?Apesar de eu querer deixá-lo, pois era contra Saddam e queria ter liberdade para escrever, eu também estava muito triste em deixar familiares e amigos. Chorei porque sabia que levaria muito tempo para voltar e também porque tinha o sentimento de que o país mudaria tanto que, na realidade, eu o estava deixando para sempre.Como você foi recebido nos Estados Unidos?As pessoas em geral são boas, mas enfrentei visões estereotipadas e era comum ouvir perguntas como: “por que você ama Saddam?”. Os estadunidenses pensam que todos os iraquianos o amam. Quando critico a política externa norte-americana eles ficam bravos e alguns me mandam voltar para o Iraque. Quando isto ocorre eu responde que os Estados Unidos destruíram meu país e que por isto não posso mais viver lá.Quando foi que você se envolveu com cinema e por que?Todo mundo sonha em fazer um filme! Eu sempre quis, mas não tinha dinheiro nem tempo. Fiquei muito frustrado antes desta última guerra no Iraque e a forma como meu país estava sendo representado nos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos. Eu quis trazer as vozes dos iraquianos e a sua diversidade para o filme. Quis que contassem suas histórias de sofrimento sob a ditadura e também sob a ocupação norte-americana. E é esta a mensagem que você quis passar com seu filme “Sobre Bagda”?Sim. Procurei ouvir as histórias de iraquianos de diferentes procedências e classes sociais para mostrar ao mundo que são pessoas complexas, como todos os seres humanos. Eles não pensam todos da mesma maneira e suas vidas vão além de Saddam X Estados Unidos. Por que você voltou ao Iraque apenas uma vez após 1991?Hoje eu moro e trabalho nos Estados Unidos, tenho meus compromissos. Além disto, a situação da segurança no Iraque desde 2003 é terrível. Há uma guerra civil e milhares de pessoas têm sido mortas. Três milhões de habitantes já deixaram o país desde a ocupação e hoje eles vivem refugiados. A ocupação gerou muita corrupção e está usando a religião e as diferenças étnicas como arma política para dividir as pessoas. Isto está sufocando o país e está custando a vida de milhares de pessoas. Por que todos pensaram que a ocupação seria ser boa? Isto é vida real e não Holywood.Como você vê o Iraque da sua infância e juventude e como o vê hoje?É muito triste. O que tem acontecido no país desde 2003 o destruiu completamente. Não que antes estivesse maravilhoso. Havia uma ditadura e faltava liberdade, mas a sociedade era estável, segura, havia ordem, sistema de saúde e outros serviços. Nunca gostei de Saddam, mas sinto pena pelas crianças que estão crescendo no Iraque de hoje. Elas não podem andar ou brincar nas ruas por causa do perigo. Existem atualmente no país um milhão de viúvas.Como era o Iraque no qual você cresceu?Era uma ditadura, mas era um país secular, no qual a religião não interferia na política. Não havia sectarismo religioso. Tínhamos água, eletricidade (hoje as pessoas só têm direito a seis horas de energia elétrica por dia) e excelente educação. Cresci brincando com meus amigos muçulmanos, sendo que venho de uma família cristã. Agora tem havido uma limpeza étnica, existem paredes separando bairros e as pessoas estão sendo assassinadas porque são diferentes.Do que você mais sente saudades?O que sinto falta não existe mais: a companhia de amigos e das pessoas queridas, andar em paz pelas ruas em Al-Karrada e ver belas estátuas. Andas ao longo do rio, beber com meus colegas da faculdade! Nada disto é possível hoje e quase todas as pessoas que conhecia se mudaram para outros países.E agora que as tropas norte-americana parecem estar deixando o Iraque, o que você acha que vai acontecer com a política e com o sentimento das pessoas?Os Estados Unidos destruíram o Iraque e suas instituições e agora estão deixando o país sem repor um sistema de Estado. Além disto, os norte-americanos não estão indo embora de fato. Eles terão bases no Iraque por muitos anos, para garantirem o acesso das companhias estadunidenses ao petróleo. Eles estão deixando as cidade e não o país todo. A maioria dos iraquianos quer eles fora, então deveriam ir. A história dos últimos duzentos anos nos mostram que seres humanos não gostam de ficar sob ocupação de estrangeiros e esta deve acabar mais cedo ou mais tarde no Iraque.Como você acha que os conflitos e guerras no Oriente Médio estão impactando a cultura árabe? Ao mesmo tempo em que há um interesse na cultura árabe pelo ocidente, infelizmente, na maioria das vezes, ela está sendo vista apenas através do prisma da violência e do terror. Não deveria ser assim, pois a cultura representa tudo relativo a vida de seu povo e não deve ser considerada a origem da violência no mundo árabe. As guerras e crises têm colocado artistas e escritores a pensarem, debaterem e questionarem em suas obras o que está ocorrendo ao seu redor. Tremores políticos e conflitos geralmente provocam a arte e a cultura e é isto que está ocorrendo no mundo árabe.Quais são seus próximos passos no cinema?Estou trabalhando com um colega em um filme sobre o poeta iraquiano Saadi Youssef. O que você achou da iniciativa do Instituto da Cultura Árabe dedicar uma programação especial a filmes iraquianos?Achei excelente. Vivemos em um mundo globalizado e estamos ligados pela tecnologia, mas ainda sabemos muito pouco sobre outras culturas. O Iraque é muito mais do que as notícias de violências que saem nos jornais. Nele vivem pessoas multidimensionais, com vidas, desejos e memórias
Fonte: ICArabe

quinta-feira, agosto 27, 2009

4ª Mostra Mundo Árabe de Cinema

Sobre Bagdá

Em julho de 2003, o escritor e poeta Sinan Antoon retorna a Bagdá para ver seu país após tantas guerras, sanções, décadas de opressão e violência e, agora, ocupação. Antoon nos leva a uma jornada que mostra o que os iraquianos pensam e sentem sobre a situação pós-guerra e a complexa relação entre os EUA e o Iraque.

Sobre Bagdá é uma viagem aos corações e mentes das centenas de iraquianos encontradas em Bagdá. Iraquianos de diferentes origens étnicas e orientações políticas falam sobre o passado de horrores e os medos do presente. São reflexões sobre o legado traumático da ditadura, que também abordam a resistência de pessoas que permaneceram por anos obscurecidas e desumanizadas por trás da imagem de Saddam. De poetas a políticos, de senhores idosos a soldados americanos, o filme navega pelos motivos que separam iraquianos e estadunidenses.

Fonte: ICARABE

http://www.icarabe.org/mundoarabe2009/

terça-feira, junho 16, 2009

Resenha



Souvenir Iraquiano, Robinson dos Santos. Blumenau: Editora Cultura em Movimento, 2005, 239 páginas.

A terra chamada hoje de Iraque é um país milenar que já foi o barco das civilizações mais antigas do mundo desde os sumérios, os babilônios e os assírios, até a chegada do islamismo no ano 637. O começo da construção de Bagdá, a nova capital do império árabe no ano 762, iniciou a época dourada da civilização árabe-islâmica. No Iraque moderno, muito dessa história é preservada em tesouros arqueológicos. Com a descoberta da enorme reserva do petróleo em 1927, aumentou ainda mais o interesse do mundo ocidental por esse país.
Em 1979, Saddam Hussein assumiu o cargo de Presidente do Iraque. Durante seu regime, o Iraque passou por três guerras. A primeira, que começou em 1980 e durou até 1988, foi entre o Iraque e o Irã. A segunda começou depois da invasão do Kuwait pelas forças armadas iraquianas em agosto de 1990, seguida dos combates para retirar as forças iraquianas do Kuwait pela coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, iniciados em janeiro de 1991; com ela foram encerradas as obras das empresas brasileiras no Iraque. A terceira guerra contra o Iraque comecou com uma resposta aos ataques terroristas de 11 de setembro, sob a alegação de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, que nunca foram achadas até hoje. Esta última resultou na queda do regime do Saddam e na dissolução do exército iraquiano.
Essas guerras tiveram sempre o foco no poder do Iraque como uma forte força militar na região, além do seu papel econômico tendo uma das maiores reservas mundiais de petróleo. Durante os anos setenta e oitenta, o Brasil chegou a importar entre 40% a 70% das suas necessidades de petróleo do Iraque. A indústria bélica era uma prioridade no Iraque e no Brasil, ainda debaixo da ditadura, que também participava da máquina da guerra iraquiana. A política da guerra acabou marginalizando a importância histórica e os tesouros arqueológicos que o país possui, exceto pela propaganda política do ex-regime que aproveitava isso como uma fonte de inspiração para o povo combater os inimigos.
Muitos sítios arqueológicos foram danificados, além de sofrerem a ação dos ladrões e dos contrabandistas internacionais que aproveitavam a confusão, apesar da punição severa contra aqueles que fossem capturados. Depois da invasão americana de 2003 e da queda de Bagdá, o país entrou num caos generalizado e até o Museu Nacional do Iraque, considerado um dos mais importantes do mundo, foi saqueado e muitas relíquias da antiga Mesopotâmia foram roubadas ou destruídas.
Logo no começo do novo gênero literário de espionagem, o Iraque e sua capital tiveram o seu papel em provocar a imaginação dos escritores. Um bom exemplo disso é Aventura em Bagdá (They Came to Bagdad), da Agatha Christie (1890-1976), um romance publicado em 1951. No Brasil, esse gênero tem um marco em 2005, com o lançamento do livro Souvenir Iraquiano pelo escritor e jornalista Robinson dos Santos.
A trama elabora uma mistura de ficção e acontecimentos reais, como o próprio escritor nos diz. O livro conseguiu provocar a curiosidade deste leitor durante os seus quinze capítulos, que formam uma contagem regressiva de dois dias antes do ataque americano da Operação Tempestade no Deserto para libertar o Kuwait (1991), a partir do sexto capítulo. O escritor foi cuidadoso na sua pesquisa de cinco anos para alinhar a ficção com os acontecimentos históricos mundiais.
Os três personagens principais são o brasileiro Luciano, que precisa de dinheiro para garantir o caro tratamento da sua filha doente no Brasil; Fahed, um ex-coronel iraquiano que se cansou de guerras durante o regime de Saddam, e decidiu ter uma vida nova junto com sua família longe de toda a confusão causada pelas guerras; e Wittmann, um espião da CIA que quer aproveitar sua posição para ganhar uma fortuna. O alvo é uma usina nuclear que já foi desativada no Iraque, onde eles procuram um tesouro de relíquias.
A história, baseada em fatos reais, leva o leitor para a época dos contratos milionários que as empresas brasileiras tiveram no Iraque nos anos 80, e que a guerra do Kuwait em 1991 marcou o fim. A história começa no Sul do Brasil, onde Luciano tenta dar um jeito de arrumar algum dinheiro em pouco tempo. Ele e mais dois homens, Luís Carlos e Hermes, planejam o sequestro de um milionário, sob o comando do velho e experiente Aurélio. O plano falha e os três ficam devendo a Aurélio 200 mil dólares.
Desesperados, Luciano e Hermes resolvem ir para o Iraque com a esperança de encontrar relíquias arqueológicas em Osirak, a usina nucelar abandonada, na qual Luciano tinha trabalhado em 1980. Ao chegar à usina eles descobrem que as relíquias foram levadas por um coronel da Guarda Republicana. Luciano acredita que pode ser seu antigo amigo iraquiano Fahed. Mas eles são presos antes pela Polícia Secreta.
Fahed, que tentava levar as duas toneladas de relíquias para fora do Iraque, já tinha encontrado com um agente da CIA na Turquia que queria sua parte. Fahed estava também sendo investigado pela Polícia Secreta Iraquiana e acabou preso no mesmo lugar onde os dois brasileiros estão.
Quando o ataque das forças de coalizão começa, o prédio onde os três estão presos é atingido e eles conseguem escapar. Conseguem levar o caminhão que carregava as relíquias para Turquia. Lá, o ex-agente da CIA, com o apoio de um helicóptero militar americano, a Polícia Nacional da Turquia, e os brasileiros junto com Fahad que querem entregar a mercadoria para o contrabandista, se enfrentam.
Juntar as informações sobre o Iraque e os acontecimentos daquela época não foi fácil, de acordo com o escritor. Ele tinha que depender dos relatórios dos brasileiros que viviam lá trabalhando nas empresas brasileiras ou dos seus filhos que moravam junto a eles lá. Isso acabou distorcendo algumas informações.
Em relação à língua falada no Iraque, o escritor menciona soldados e policiais iraquianos falando em farisi, ou persa, a língua oficial do Irã, e que era considerada a língua do inimigo durante a guerra entre os dois países. O normal seria falar a língua árabe no Iraque, pois ninguém naquela época gostaria de ser acusado de espionagem. E em outra parte, ao falar sobre a culinária iraquiana, ele menciona que eles "...comeram carne de ovelha, arroz e legumes crus". Na verdade, o que os iraquianos comem de cru é pepino, tomate, cebola e alface como salada.
Houve também algumas confusões em relação aos nomes, como no caso de Azize, que é um nome feminino; o masculino, como aparece no livro, deveria ser Aziz. E também o nome do amigo de Fahad, o Coronel Osman. Este nome não é um nome comum no Iraque. Porém, o mais provável é que o nome fosse Otham e não Osman.
No final do quarto capítulo, durante uma conversa entre os dois soldados iraquianos que guardavam o sítio de uma usina nucelar abandonada, é mencionada uma marca do relógio com pulseira de titânio como sendo um relógio caro, na tentativa dos dois brasileiros de subornar os dois soldados. Vale a pena lembrar que mesmo sendo abandonado, não seria algo tão fácil entrar num lugar como esse principalmente durante aquela época. O soldado dificilmente se arriscaria por um relógio.
Em relação às mulheres iraquianas, o autor escreve no segundo capítulo: "...qual seria a mulher que teria possibilidade de juntar dinheiro suficiente para adquirir um automóvel?" Isto não é muito exato, pois a mulher iraquiana sempre teve o direito de trabalhar como os homens e ganhar dinheiro para comprar e dirigir seu carro. Além disso, o carro que o Brasil exportava para o Iraque não era o Fox, mas o Passat da Volkswagen.
Finalmente, na penúltima página o escritor faz um comentário sobre o iraquiano Fahad, dizendo: "Afinal de contas, era ou não era quase turco?" Iraque e Turquia são países vizinhos, e apesar da confusão entre os dois países aqui no Brasil, o Iraque é um país árabe e fala a língua árabe, enquanto a Turquia não.
O esforço do escritor rendeu um trabalho inovador e importante. Ele conseguiu levar o leitor para uma época marcante, para uma parceria entre o Brasil e o Iraque na qual a repercussão foi além do que nós pensamos - dois países que viviam sob dois regimes militares, o que acabou decidindo o destino das riquezas e das vidas de muitas pessoas.
Fonte:

domingo, junho 07, 2009

"Danos Colaterais"

Diz a ele "adeus" segurando suas lágrimas para que não a veja chorar antes da sua partida. Ela não lembra mais quantas vezes se despediu do seu único filho, na hora de deixar a casa para juntar-se à sua unidade do Exército. Viviam uma guerra feroz que durou muitos anos e matou milhares das pessoas. Cada vez que seu filho deixava a casa, ela tentava se distrair enquanto a sombra da morte a perseguia com sua risada sarcástica, insinuando que seu filho não voltaria, deixando as batidas do seu coração iguais às batidas do velho relógio na sala, esperando a volta do seu filho. Cansada pelo sono, ela foge dele até que fecha os olhos e dorme.
Os dias passam lentamente, feito caravana no deserto, até o dia que ela escuta o barulho do seu filho batendo à porta da casa, seus olhos brilham de alegria novamente. Ela agradece a Deus e se alegra com a chegada do filho e diz a ele: "Seu pai morreu sonhando com o Iraque livre, e hoje eu sonho com o fim dessa guerra para me alegrar vendo você casado e com filhos." Ele respondia dizendo: "Não se preocupe, minha mãe, Deus está conosco. Esta guerra terminará logo e a paz vai reinar." Ele sabia o quanto ela se preocupava com ele e sempre queria sossegá-la. Assim os anos passam até que um dia ela acorda e o povo está nas ruas dançando e celebrando. Ela pergunta a seu vizinho Abu Ahmad: "O que foi?" Ele diz a ela: "Alegre-se, Um Salam, a guerra acabou. Nós ganhamos a guerra." "Ganhamos?!", ela pergunta para si mesma. Bom, tudo o que queria era que a guerra acabasse e que seu filho estivesse vivo. Sim, ela ganhou a guerra naquela noite de 1988, em seguida fechou os olhos e dormiu profundamente como se tivesse ficado anos sem dormir.
Dizem que a felicidade não dura para sempre, mas no tempo da ditadura ela vive escondida, perseguida. Um Salam abre os olhos numa madrugada de 1990 e liga a TV como sempre, e se surpreende com a declaração da porta-voz oficial de Exército: "O que foi separado voltou à origem, e nossas tropas estão controlando o Kuwait!" O pesadelo era como se fosse um filme de terror que você volta a assistir pela segunda vez, sabendo que todos seus atores principais vão morrer antes do final. No mesmo dia, ele foi chamado para se juntar ao Exército.
A contagem regressiva acelerava antes das tropas da coalizão começarem seu ataque para libertar o Kuwait. A hora zero chega e o ataque começa ferozmente. O bombardeio aéreo não pára e Salam e seus colegas sentem que sua morte é certa, então decidem fugir. Ele volta para casa e sua mãe se alegra com a sua volta e faz questão de escondê-lo, mas seus olhos não dormem, pois ela sabia que a pena pra quem fugisse do Exército, naqueles dias, era a execução. Desta vez a roda da guerra é rápida e esmaga em menos de um mês e meio milhares de soldados. A guerra termina e uma anistia é dada para os desertores, e então Um Salam respira aliviada, seu filho ganhou uma nova vida.
Depois da guerra, a vida volta ao seu ritmo normal, e as pessoas voltam a suas rotinas. Salam é liberado do Exército e realiza o sonho de sua mãe, casando-se. A guerra do Kuwait foi muito curta, mas foi também o começo do embargo comercial contra o Iraque. Os preços começaram a subir e Salam e sua mãe começaram a sentir o impacto do embargo, principalmente depois que a mulher dele ficou grávida. Salam saía para trabalhar todos os dias pela manhã e só voltava à noite. Sua mãe, porém, agradecia a Deus dia e noite pela paz no país e rezava para seu filho ter sorte, todos os dias que abria seus olhos de manhã. Como sempre, ela acordava bem cedo e preparava o café para ele antes de ele sair para trabalhar.
O filho do Salam nasce, e ele o chama de Shukr, para agradecer a Deus pela sua graça. Todos em casa se alegram e esquecem o tempo das guerras. No relógio na sala, porém, o barulho de tique-taque continuava com a mesma monotonia do tempo da guerra como se fosse um tempo paralisado. Às vezes, no silêncio da noite, o barulho lembrava aqueles momentos terríveis, então ela rezava imediatamente, o que acalmava sua alma, e só assim ela conseguia dormir. Não é de se admirar, pois as guerras implantam sementes de medo nos corações das pessoas, sementes que crescem como espinhos. Assim, mesmo depois que as ervas daninhas da guerra morrem, o homem não as retira de sua mente; algumas delas se mantêm no seu pensamento, estragando sua alegria e fazendo-o se sentir culpado quando fica alegre, como se estivesse abusando no seu destino.
O fantasma da guerra aparece novamente pela terceira vez em 2003 e os EUA começam a ameaçar o Iraque novamente. Desta vez as pessoas estão perplexas, o que será que vai acontecer? Ninguém sabe. Uma coisa é certa: esta é a terceira vez, e, como diz o ditado popular que Um Salam gosta de repetir, "a terceira é certeza". Salam não foi chamado para o Exército desta vez por causa da sua miopia, que piorou nos últimos anos, o que acabou tranqüilizando sua mãe. Dias depois, Um Salam acorda com os barulhos dos gritos das celebrações, então ela sai para a rua para ver o que aconteceu, e agora o cenário havia mudado. Os soldados nas ruas não são iraquianos, mas americanos. Ela pergunta para o seu vizinho Abu Ahmad, que detestava Saddam depois que este executou seu filho que fazia parte de um partido da oposição: "O que aconteceu?" Abu Ahmad responde: "Alegre-se, Um Salam, os americanos arrancaram o tirano e vão implantar a árvore da democracia e liberdade em seu lugar." Ela disse a ele: "Seja o que Deus quiser. Somos pessoas simples e não temos nada em nossas mãos além de rezar para que a bondade de Deus domine este país."
A guerra termina rapidamente, os americanos declaram o cessar-fogo e desmontam o Exército e as forcas policiais; e então começa uma onda de assaltos, assassinatos e explosões. Os americanos tentam tranqüilizar a população, sem sucesso. Salam sai para comprar pão antes de escurecer. Seu vizinho, Abu Ahmad, o vê saindo de casa e os dois começam a andar juntos.
Salam demora a voltar, já passa das seis horas da tarde e ele ainda não voltou. Vários pensamentos passam pela mente de Um Salam e ela começa a se preocupar, sua nora a acalma dizendo que Abu Ahmad fala inglês e vai ajudar Salam no caso de eles serem parados por uma blitz americana. O tique-taque do relógio desta vez era como se fossem batidas na bigorna na cabeça de Um Salam. Ela não pára de olhar o relógio da sala de estar por um segundo. Finalmente, alguém bate na porta de sua casa. Um Salam abre a porta e vê Abu Ahmad parado na sua frente como se fosse um fantasma mudo. Ela percebe o que algo aconteceu e desmaia.
No dia seguinte Um Salam, deitada em sua cama, abre os olhos para ver sua nora e neto ao seu lado, junto à esposa de Abu Ahmad, com os sinais de tristeza na suas faces. Ela pergunta: "Onde está Salam?" Sua nora chora e sai do quarto. Ela volta a perguntar: "Onde está Salam, Um Ahmad?" Então a vizinha conta que seu filho morreu. Um Salam agarra a roupa da sua vizinha e pergunta: "Ele morreu como mártir defendendo seu país?" A resposta foi "Não". Então ela pergunta novamente: "Ele morreu como traidor ajudando os inimigos?" A preposta novamente foi "Não". "Então o que aconteceu?", ela pergunta histericamente. Um Ahmad responde: "Uma patrulha americana atirou nele e em meu marido por engano, quando estavam voltando da padaria, achando que eles estavam carregando explosivos, atiraram em Salam e quase acertaram em meu marido também. Abu Ahmad disse que eles chamam este tipo de falecimento de "Danos Colaterais".
O silêncio domina o lugar, exceto pelo tique taque do relógio na sala de estar e o gemido da viúva de Salam no seu quarto. Um Salam fecha seus olhos, desta vez para sempre.

Fonte:
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3808675-EI6622,00-Conto+convidado+Danos+Colaterais.html