(Open Shutters Iraq, 2009, Síria/Reino Unido, cor, 103’, DigiBeta)
Direção: Maysoon Pachachi
Gênero: documentário
Fonte: ICArabe
http://icarabe.provisorio.ws/noticias/5a-mostra-mundo-arabe-de-cinema-exibira-14-filmes-em-sao-paulo
Quando eu morri, no caminho para a sepultura, disseram para mim que minha vida, como um fantasma, seria maravilhosa, compensando a miséria que encontrei antes de morrer: “você dormirá o dia inteiro em sua confortável sepultura, onde poderá se mexer à vontade. Você estará livre da multidão, do trânsito e da miséria diária. Acordará no meio da noite e andará livremente em sua cidade, sem ser parado por alguém para pedir seu documento. Poderá atravessar a rua quando quiser, sem correr o risco de ser atropelado. Poderá infringir todas as leis e viajar para qualquer país sem visto. Não ficará com fome nem sede, tampouco sentirá frio ou calor. Ninguém o matará, pois já está morto. Se quiser, e isto é o que mais importa, poderá se vingar, finalmente, de seus inimigos. Sua aparição atormentará aqueles que roubaram seu dinheiro e mataram seus filhos. Você se divertirá perturbando-os de seu jeito e transformando as noites deles num verdadeiro inferno. Você entrará nas casas deles, quando quiser. Poderá assustar os filhos deles, fazendo-os molharem as camas. Será o mestre. Verá todos se ajoelharem como cachorros ou correrem para um psiquiatra sem contar a ninguém que eles viram um fantasma, para que não sejam considerados loucos. Todas as receitas que lhes derem e todos os remédios que tomarem não farão efeito. Satisfeito com seu poder, você voltará para sua sepultura antes do amanhecer, cantando sua música predileta e planejando a noite seguinte”.
Faz anos que estou vagando pelas ruas de minha cidade todas as noites. Ninguém olha para mim. Ninguém me teme, nem mesmo as crianças. A riqueza daqueles que me mataram multiplicou-se, e suas barrigas cresceram. Às vezes, eu me perco em suas grandes mansões, mas, geralmente, eu os vejo celebrando ao redor de suas mesas cheias de comida durante noites de muitas risadas. Eles não se preocupam quando eu entro ou quando eu fico por lá. Eu paro perto de suas camas e grito, com toda minha força, em seus ouvidos, mas não escuto nada além de seus roncos barulhentos, cada vez mais fortes. Somente seus cachorros me cumprimentam, às vezes, latindo ou abanando os rabos quando eu saio, durante as madrugadas, frustrado devido a meu fracasso.
A sepultura é bem menor do que eu imaginava. Eu não durmo há mais de um ano. Meu vizinho me aconselhou consultar um psiquiatra. Ele me disse que muita gente sofre nos primeiros anos. Depois, aceitam a realidade e o fato de que nós fomos enganados duas vezes. Amanhã, irei ao médico.
Sinan Antoon / Agosto de 2009
Tradução direta do árabe: Khalid Tailche
Revisão Literária:
Dra. Glauce Rocha
Em julho de 2003, o escritor e poeta Sinan Antoon retorna a Bagdá para ver seu país após tantas guerras, sanções, décadas de opressão e violência e, agora, ocupação. Antoon nos leva a uma jornada que mostra o que os iraquianos pensam e sentem sobre a situação pós-guerra e a complexa relação entre os EUA e o Iraque.
Sobre Bagdá é uma viagem aos corações e mentes das centenas de iraquianos encontradas em Bagdá. Iraquianos de diferentes origens étnicas e orientações políticas falam sobre o passado de horrores e os medos do presente. São reflexões sobre o legado traumático da ditadura, que também abordam a resistência de pessoas que permaneceram por anos obscurecidas e desumanizadas por trás da imagem de Saddam. De poetas a políticos, de senhores idosos a soldados americanos, o filme navega pelos motivos que separam iraquianos e estadunidenses.
Fonte: ICARABE

Bagdá ...Oh Bagdá
por Khalid Tailche
Destruíram meu país
e nas suas ruínas
implantaram o terror
Araram a terra com as bombas
e irrigaram suas diabólicas ervas
com as lágrimas das viúvas
Bagdá...
terra da alegria e da música
terra de ciência de literatura
tornou-se a terra de lamúria
Suas portas estão abertas
para o vento amarelo
Suas ruas são refúgios
para os lobos frenéticos
e os bêbados de sangue
Bagdá, Oh Bagdá
roubaram sua riqueza
e expulsaram seus filhos
e não deixaram em ti
pedra em cima de pedra
Tivemos paciência
seja paciente
Para cada doença há remédio
e para cada criminoso há destin
Fonte:
http://www.icarabe.org/CN02/historia/pron_det_poesias.asp?id=45