Sinan Antoon nasceu em Bagdá, em 1967, onde cresceu e estudou Literatura Inglesa, formando-se aos 23 anos, em 1990. Assim como milhares de iraquiano, ele e sua família deixaram o país em decorrência da Guerra Golfo e imigraram, em 1991, para os Estados Unidos da América. No país estrangeiro Antoon aprofundou seus estudos e pesquisas em Literatura Árabe com um mestrado na Universidade de Georgetown (1995) e depois adquirindo o título de PhD, por Harvard (2006). Em 2003, o Iraque voltou a ocupar as páginas dos jornais de todo o mundo com a queda de Saddam Hussein e a invasão estadunidense. Frustrado e indignado com a forma como seu país e seu povo estavam sendo retratados na mídia norte-americana, Antoon voltou, após doze anos, para sua terra natal com a intenção de produzir um documentário que revelasse as diversas faces e vozes do povo iraquiano, que contasse histórias de pessoas e seus sofrimentos sob a ditadura e a ocupação. Desta incrível experiência nasceu o longa-metragem Sobre Bagdá, finalizado em 2004 e exibido nesta 4ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. Como escritor, Antoon publicou, entre outras coisas, a coleção de poemas The Baghdad Blues (Harbor Mountain Press, 2007) e a novela, I'jaam: An Iraqi Rhapsody (City Lights, 2007), traduzida para alemão, norueguês, italiano e português. No Brasil, o livro foi lançado com o título Morrer em Bagdá (Editora Globo). O que você pensou quando deixou seu país, em 1991?Apesar de eu querer deixá-lo, pois era contra Saddam e queria ter liberdade para escrever, eu também estava muito triste em deixar familiares e amigos. Chorei porque sabia que levaria muito tempo para voltar e também porque tinha o sentimento de que o país mudaria tanto que, na realidade, eu o estava deixando para sempre.Como você foi recebido nos Estados Unidos?As pessoas em geral são boas, mas enfrentei visões estereotipadas e era comum ouvir perguntas como: “por que você ama Saddam?”. Os estadunidenses pensam que todos os iraquianos o amam. Quando critico a política externa norte-americana eles ficam bravos e alguns me mandam voltar para o Iraque. Quando isto ocorre eu responde que os Estados Unidos destruíram meu país e que por isto não posso mais viver lá.Quando foi que você se envolveu com cinema e por que?Todo mundo sonha em fazer um filme! Eu sempre quis, mas não tinha dinheiro nem tempo. Fiquei muito frustrado antes desta última guerra no Iraque e a forma como meu país estava sendo representado nos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos. Eu quis trazer as vozes dos iraquianos e a sua diversidade para o filme. Quis que contassem suas histórias de sofrimento sob a ditadura e também sob a ocupação norte-americana. E é esta a mensagem que você quis passar com seu filme “Sobre Bagda”?Sim. Procurei ouvir as histórias de iraquianos de diferentes procedências e classes sociais para mostrar ao mundo que são pessoas complexas, como todos os seres humanos. Eles não pensam todos da mesma maneira e suas vidas vão além de Saddam X Estados Unidos. Por que você voltou ao Iraque apenas uma vez após 1991?Hoje eu moro e trabalho nos Estados Unidos, tenho meus compromissos. Além disto, a situação da segurança no Iraque desde 2003 é terrível. Há uma guerra civil e milhares de pessoas têm sido mortas. Três milhões de habitantes já deixaram o país desde a ocupação e hoje eles vivem refugiados. A ocupação gerou muita corrupção e está usando a religião e as diferenças étnicas como arma política para dividir as pessoas. Isto está sufocando o país e está custando a vida de milhares de pessoas. Por que todos pensaram que a ocupação seria ser boa? Isto é vida real e não Holywood.Como você vê o Iraque da sua infância e juventude e como o vê hoje?É muito triste. O que tem acontecido no país desde 2003 o destruiu completamente. Não que antes estivesse maravilhoso. Havia uma ditadura e faltava liberdade, mas a sociedade era estável, segura, havia ordem, sistema de saúde e outros serviços. Nunca gostei de Saddam, mas sinto pena pelas crianças que estão crescendo no Iraque de hoje. Elas não podem andar ou brincar nas ruas por causa do perigo. Existem atualmente no país um milhão de viúvas.Como era o Iraque no qual você cresceu?Era uma ditadura, mas era um país secular, no qual a religião não interferia na política. Não havia sectarismo religioso. Tínhamos água, eletricidade (hoje as pessoas só têm direito a seis horas de energia elétrica por dia) e excelente educação. Cresci brincando com meus amigos muçulmanos, sendo que venho de uma família cristã. Agora tem havido uma limpeza étnica, existem paredes separando bairros e as pessoas estão sendo assassinadas porque são diferentes.Do que você mais sente saudades?O que sinto falta não existe mais: a companhia de amigos e das pessoas queridas, andar em paz pelas ruas em Al-Karrada e ver belas estátuas. Andas ao longo do rio, beber com meus colegas da faculdade! Nada disto é possível hoje e quase todas as pessoas que conhecia se mudaram para outros países.E agora que as tropas norte-americana parecem estar deixando o Iraque, o que você acha que vai acontecer com a política e com o sentimento das pessoas?Os Estados Unidos destruíram o Iraque e suas instituições e agora estão deixando o país sem repor um sistema de Estado. Além disto, os norte-americanos não estão indo embora de fato. Eles terão bases no Iraque por muitos anos, para garantirem o acesso das companhias estadunidenses ao petróleo. Eles estão deixando as cidade e não o país todo. A maioria dos iraquianos quer eles fora, então deveriam ir. A história dos últimos duzentos anos nos mostram que seres humanos não gostam de ficar sob ocupação de estrangeiros e esta deve acabar mais cedo ou mais tarde no Iraque.Como você acha que os conflitos e guerras no Oriente Médio estão impactando a cultura árabe? Ao mesmo tempo em que há um interesse na cultura árabe pelo ocidente, infelizmente, na maioria das vezes, ela está sendo vista apenas através do prisma da violência e do terror. Não deveria ser assim, pois a cultura representa tudo relativo a vida de seu povo e não deve ser considerada a origem da violência no mundo árabe. As guerras e crises têm colocado artistas e escritores a pensarem, debaterem e questionarem em suas obras o que está ocorrendo ao seu redor. Tremores políticos e conflitos geralmente provocam a arte e a cultura e é isto que está ocorrendo no mundo árabe.Quais são seus próximos passos no cinema?Estou trabalhando com um colega em um filme sobre o poeta iraquiano Saadi Youssef. O que você achou da iniciativa do Instituto da Cultura Árabe dedicar uma programação especial a filmes iraquianos?Achei excelente. Vivemos em um mundo globalizado e estamos ligados pela tecnologia, mas ainda sabemos muito pouco sobre outras culturas. O Iraque é muito mais do que as notícias de violências que saem nos jornais. Nele vivem pessoas multidimensionais, com vidas, desejos e memórias
quarta-feira, setembro 09, 2009
Um olhar iraquiano sobre Bagdá
Sinan Antoon nasceu em Bagdá, em 1967, onde cresceu e estudou Literatura Inglesa, formando-se aos 23 anos, em 1990. Assim como milhares de iraquiano, ele e sua família deixaram o país em decorrência da Guerra Golfo e imigraram, em 1991, para os Estados Unidos da América. No país estrangeiro Antoon aprofundou seus estudos e pesquisas em Literatura Árabe com um mestrado na Universidade de Georgetown (1995) e depois adquirindo o título de PhD, por Harvard (2006). Em 2003, o Iraque voltou a ocupar as páginas dos jornais de todo o mundo com a queda de Saddam Hussein e a invasão estadunidense. Frustrado e indignado com a forma como seu país e seu povo estavam sendo retratados na mídia norte-americana, Antoon voltou, após doze anos, para sua terra natal com a intenção de produzir um documentário que revelasse as diversas faces e vozes do povo iraquiano, que contasse histórias de pessoas e seus sofrimentos sob a ditadura e a ocupação. Desta incrível experiência nasceu o longa-metragem Sobre Bagdá, finalizado em 2004 e exibido nesta 4ª Mostra Mundo Árabe de Cinema. Como escritor, Antoon publicou, entre outras coisas, a coleção de poemas The Baghdad Blues (Harbor Mountain Press, 2007) e a novela, I'jaam: An Iraqi Rhapsody (City Lights, 2007), traduzida para alemão, norueguês, italiano e português. No Brasil, o livro foi lançado com o título Morrer em Bagdá (Editora Globo). O que você pensou quando deixou seu país, em 1991?Apesar de eu querer deixá-lo, pois era contra Saddam e queria ter liberdade para escrever, eu também estava muito triste em deixar familiares e amigos. Chorei porque sabia que levaria muito tempo para voltar e também porque tinha o sentimento de que o país mudaria tanto que, na realidade, eu o estava deixando para sempre.Como você foi recebido nos Estados Unidos?As pessoas em geral são boas, mas enfrentei visões estereotipadas e era comum ouvir perguntas como: “por que você ama Saddam?”. Os estadunidenses pensam que todos os iraquianos o amam. Quando critico a política externa norte-americana eles ficam bravos e alguns me mandam voltar para o Iraque. Quando isto ocorre eu responde que os Estados Unidos destruíram meu país e que por isto não posso mais viver lá.Quando foi que você se envolveu com cinema e por que?Todo mundo sonha em fazer um filme! Eu sempre quis, mas não tinha dinheiro nem tempo. Fiquei muito frustrado antes desta última guerra no Iraque e a forma como meu país estava sendo representado nos principais veículos de comunicação dos Estados Unidos. Eu quis trazer as vozes dos iraquianos e a sua diversidade para o filme. Quis que contassem suas histórias de sofrimento sob a ditadura e também sob a ocupação norte-americana. E é esta a mensagem que você quis passar com seu filme “Sobre Bagda”?Sim. Procurei ouvir as histórias de iraquianos de diferentes procedências e classes sociais para mostrar ao mundo que são pessoas complexas, como todos os seres humanos. Eles não pensam todos da mesma maneira e suas vidas vão além de Saddam X Estados Unidos. Por que você voltou ao Iraque apenas uma vez após 1991?Hoje eu moro e trabalho nos Estados Unidos, tenho meus compromissos. Além disto, a situação da segurança no Iraque desde 2003 é terrível. Há uma guerra civil e milhares de pessoas têm sido mortas. Três milhões de habitantes já deixaram o país desde a ocupação e hoje eles vivem refugiados. A ocupação gerou muita corrupção e está usando a religião e as diferenças étnicas como arma política para dividir as pessoas. Isto está sufocando o país e está custando a vida de milhares de pessoas. Por que todos pensaram que a ocupação seria ser boa? Isto é vida real e não Holywood.Como você vê o Iraque da sua infância e juventude e como o vê hoje?É muito triste. O que tem acontecido no país desde 2003 o destruiu completamente. Não que antes estivesse maravilhoso. Havia uma ditadura e faltava liberdade, mas a sociedade era estável, segura, havia ordem, sistema de saúde e outros serviços. Nunca gostei de Saddam, mas sinto pena pelas crianças que estão crescendo no Iraque de hoje. Elas não podem andar ou brincar nas ruas por causa do perigo. Existem atualmente no país um milhão de viúvas.Como era o Iraque no qual você cresceu?Era uma ditadura, mas era um país secular, no qual a religião não interferia na política. Não havia sectarismo religioso. Tínhamos água, eletricidade (hoje as pessoas só têm direito a seis horas de energia elétrica por dia) e excelente educação. Cresci brincando com meus amigos muçulmanos, sendo que venho de uma família cristã. Agora tem havido uma limpeza étnica, existem paredes separando bairros e as pessoas estão sendo assassinadas porque são diferentes.Do que você mais sente saudades?O que sinto falta não existe mais: a companhia de amigos e das pessoas queridas, andar em paz pelas ruas em Al-Karrada e ver belas estátuas. Andas ao longo do rio, beber com meus colegas da faculdade! Nada disto é possível hoje e quase todas as pessoas que conhecia se mudaram para outros países.E agora que as tropas norte-americana parecem estar deixando o Iraque, o que você acha que vai acontecer com a política e com o sentimento das pessoas?Os Estados Unidos destruíram o Iraque e suas instituições e agora estão deixando o país sem repor um sistema de Estado. Além disto, os norte-americanos não estão indo embora de fato. Eles terão bases no Iraque por muitos anos, para garantirem o acesso das companhias estadunidenses ao petróleo. Eles estão deixando as cidade e não o país todo. A maioria dos iraquianos quer eles fora, então deveriam ir. A história dos últimos duzentos anos nos mostram que seres humanos não gostam de ficar sob ocupação de estrangeiros e esta deve acabar mais cedo ou mais tarde no Iraque.Como você acha que os conflitos e guerras no Oriente Médio estão impactando a cultura árabe? Ao mesmo tempo em que há um interesse na cultura árabe pelo ocidente, infelizmente, na maioria das vezes, ela está sendo vista apenas através do prisma da violência e do terror. Não deveria ser assim, pois a cultura representa tudo relativo a vida de seu povo e não deve ser considerada a origem da violência no mundo árabe. As guerras e crises têm colocado artistas e escritores a pensarem, debaterem e questionarem em suas obras o que está ocorrendo ao seu redor. Tremores políticos e conflitos geralmente provocam a arte e a cultura e é isto que está ocorrendo no mundo árabe.Quais são seus próximos passos no cinema?Estou trabalhando com um colega em um filme sobre o poeta iraquiano Saadi Youssef. O que você achou da iniciativa do Instituto da Cultura Árabe dedicar uma programação especial a filmes iraquianos?Achei excelente. Vivemos em um mundo globalizado e estamos ligados pela tecnologia, mas ainda sabemos muito pouco sobre outras culturas. O Iraque é muito mais do que as notícias de violências que saem nos jornais. Nele vivem pessoas multidimensionais, com vidas, desejos e memórias
quinta-feira, agosto 27, 2009
4ª Mostra Mundo Árabe de Cinema
Em julho de 2003, o escritor e poeta Sinan Antoon retorna a Bagdá para ver seu país após tantas guerras, sanções, décadas de opressão e violência e, agora, ocupação. Antoon nos leva a uma jornada que mostra o que os iraquianos pensam e sentem sobre a situação pós-guerra e a complexa relação entre os EUA e o Iraque.
Sobre Bagdá é uma viagem aos corações e mentes das centenas de iraquianos encontradas em Bagdá. Iraquianos de diferentes origens étnicas e orientações políticas falam sobre o passado de horrores e os medos do presente. São reflexões sobre o legado traumático da ditadura, que também abordam a resistência de pessoas que permaneceram por anos obscurecidas e desumanizadas por trás da imagem de Saddam. De poetas a políticos, de senhores idosos a soldados americanos, o filme navega pelos motivos que separam iraquianos e estadunidenses.
Fonte: ICARABE
terça-feira, junho 16, 2009
Resenha

A terra chamada hoje de Iraque é um país milenar que já foi o barco das civilizações mais antigas do mundo desde os sumérios, os babilônios e os assírios, até a chegada do islamismo no ano 637. O começo da construção de Bagdá, a nova capital do império árabe no ano 762, iniciou a época dourada da civilização árabe-islâmica. No Iraque moderno, muito dessa história é preservada em tesouros arqueológicos. Com a descoberta da enorme reserva do petróleo em 1927, aumentou ainda mais o interesse do mundo ocidental por esse país.
Em 1979, Saddam Hussein assumiu o cargo de Presidente do Iraque. Durante seu regime, o Iraque passou por três guerras. A primeira, que começou em 1980 e durou até 1988, foi entre o Iraque e o Irã. A segunda começou depois da invasão do Kuwait pelas forças armadas iraquianas em agosto de 1990, seguida dos combates para retirar as forças iraquianas do Kuwait pela coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos, iniciados em janeiro de 1991; com ela foram encerradas as obras das empresas brasileiras no Iraque. A terceira guerra contra o Iraque comecou com uma resposta aos ataques terroristas de 11 de setembro, sob a alegação de que o Iraque possuía armas de destruição em massa, que nunca foram achadas até hoje. Esta última resultou na queda do regime do Saddam e na dissolução do exército iraquiano.
Essas guerras tiveram sempre o foco no poder do Iraque como uma forte força militar na região, além do seu papel econômico tendo uma das maiores reservas mundiais de petróleo. Durante os anos setenta e oitenta, o Brasil chegou a importar entre 40% a 70% das suas necessidades de petróleo do Iraque. A indústria bélica era uma prioridade no Iraque e no Brasil, ainda debaixo da ditadura, que também participava da máquina da guerra iraquiana. A política da guerra acabou marginalizando a importância histórica e os tesouros arqueológicos que o país possui, exceto pela propaganda política do ex-regime que aproveitava isso como uma fonte de inspiração para o povo combater os inimigos.
Muitos sítios arqueológicos foram danificados, além de sofrerem a ação dos ladrões e dos contrabandistas internacionais que aproveitavam a confusão, apesar da punição severa contra aqueles que fossem capturados. Depois da invasão americana de 2003 e da queda de Bagdá, o país entrou num caos generalizado e até o Museu Nacional do Iraque, considerado um dos mais importantes do mundo, foi saqueado e muitas relíquias da antiga Mesopotâmia foram roubadas ou destruídas.
Logo no começo do novo gênero literário de espionagem, o Iraque e sua capital tiveram o seu papel em provocar a imaginação dos escritores. Um bom exemplo disso é Aventura em Bagdá (They Came to Bagdad), da Agatha Christie (1890-1976), um romance publicado em 1951. No Brasil, esse gênero tem um marco em 2005, com o lançamento do livro Souvenir Iraquiano pelo escritor e jornalista Robinson dos Santos.
A trama elabora uma mistura de ficção e acontecimentos reais, como o próprio escritor nos diz. O livro conseguiu provocar a curiosidade deste leitor durante os seus quinze capítulos, que formam uma contagem regressiva de dois dias antes do ataque americano da Operação Tempestade no Deserto para libertar o Kuwait (1991), a partir do sexto capítulo. O escritor foi cuidadoso na sua pesquisa de cinco anos para alinhar a ficção com os acontecimentos históricos mundiais.
Os três personagens principais são o brasileiro Luciano, que precisa de dinheiro para garantir o caro tratamento da sua filha doente no Brasil; Fahed, um ex-coronel iraquiano que se cansou de guerras durante o regime de Saddam, e decidiu ter uma vida nova junto com sua família longe de toda a confusão causada pelas guerras; e Wittmann, um espião da CIA que quer aproveitar sua posição para ganhar uma fortuna. O alvo é uma usina nuclear que já foi desativada no Iraque, onde eles procuram um tesouro de relíquias.
A história, baseada em fatos reais, leva o leitor para a época dos contratos milionários que as empresas brasileiras tiveram no Iraque nos anos 80, e que a guerra do Kuwait em 1991 marcou o fim. A história começa no Sul do Brasil, onde Luciano tenta dar um jeito de arrumar algum dinheiro em pouco tempo. Ele e mais dois homens, Luís Carlos e Hermes, planejam o sequestro de um milionário, sob o comando do velho e experiente Aurélio. O plano falha e os três ficam devendo a Aurélio 200 mil dólares.
Desesperados, Luciano e Hermes resolvem ir para o Iraque com a esperança de encontrar relíquias arqueológicas em Osirak, a usina nucelar abandonada, na qual Luciano tinha trabalhado em 1980. Ao chegar à usina eles descobrem que as relíquias foram levadas por um coronel da Guarda Republicana. Luciano acredita que pode ser seu antigo amigo iraquiano Fahed. Mas eles são presos antes pela Polícia Secreta.
Fahed, que tentava levar as duas toneladas de relíquias para fora do Iraque, já tinha encontrado com um agente da CIA na Turquia que queria sua parte. Fahed estava também sendo investigado pela Polícia Secreta Iraquiana e acabou preso no mesmo lugar onde os dois brasileiros estão.
Quando o ataque das forças de coalizão começa, o prédio onde os três estão presos é atingido e eles conseguem escapar. Conseguem levar o caminhão que carregava as relíquias para Turquia. Lá, o ex-agente da CIA, com o apoio de um helicóptero militar americano, a Polícia Nacional da Turquia, e os brasileiros junto com Fahad que querem entregar a mercadoria para o contrabandista, se enfrentam.
Juntar as informações sobre o Iraque e os acontecimentos daquela época não foi fácil, de acordo com o escritor. Ele tinha que depender dos relatórios dos brasileiros que viviam lá trabalhando nas empresas brasileiras ou dos seus filhos que moravam junto a eles lá. Isso acabou distorcendo algumas informações.
Em relação à língua falada no Iraque, o escritor menciona soldados e policiais iraquianos falando em farisi, ou persa, a língua oficial do Irã, e que era considerada a língua do inimigo durante a guerra entre os dois países. O normal seria falar a língua árabe no Iraque, pois ninguém naquela época gostaria de ser acusado de espionagem. E em outra parte, ao falar sobre a culinária iraquiana, ele menciona que eles "...comeram carne de ovelha, arroz e legumes crus". Na verdade, o que os iraquianos comem de cru é pepino, tomate, cebola e alface como salada.
Houve também algumas confusões em relação aos nomes, como no caso de Azize, que é um nome feminino; o masculino, como aparece no livro, deveria ser Aziz. E também o nome do amigo de Fahad, o Coronel Osman. Este nome não é um nome comum no Iraque. Porém, o mais provável é que o nome fosse Otham e não Osman.
No final do quarto capítulo, durante uma conversa entre os dois soldados iraquianos que guardavam o sítio de uma usina nucelar abandonada, é mencionada uma marca do relógio com pulseira de titânio como sendo um relógio caro, na tentativa dos dois brasileiros de subornar os dois soldados. Vale a pena lembrar que mesmo sendo abandonado, não seria algo tão fácil entrar num lugar como esse principalmente durante aquela época. O soldado dificilmente se arriscaria por um relógio.
Em relação às mulheres iraquianas, o autor escreve no segundo capítulo: "...qual seria a mulher que teria possibilidade de juntar dinheiro suficiente para adquirir um automóvel?" Isto não é muito exato, pois a mulher iraquiana sempre teve o direito de trabalhar como os homens e ganhar dinheiro para comprar e dirigir seu carro. Além disso, o carro que o Brasil exportava para o Iraque não era o Fox, mas o Passat da Volkswagen.
Finalmente, na penúltima página o escritor faz um comentário sobre o iraquiano Fahad, dizendo: "Afinal de contas, era ou não era quase turco?" Iraque e Turquia são países vizinhos, e apesar da confusão entre os dois países aqui no Brasil, o Iraque é um país árabe e fala a língua árabe, enquanto a Turquia não.
O esforço do escritor rendeu um trabalho inovador e importante. Ele conseguiu levar o leitor para uma época marcante, para uma parceria entre o Brasil e o Iraque na qual a repercussão foi além do que nós pensamos - dois países que viviam sob dois regimes militares, o que acabou decidindo o destino das riquezas e das vidas de muitas pessoas.
domingo, junho 07, 2009
"Danos Colaterais"
A guerra termina rapidamente, os americanos declaram o cessar-fogo e desmontam o Exército e as forcas policiais; e então começa uma onda de assaltos, assassinatos e explosões. Os americanos tentam tranqüilizar a população, sem sucesso. Salam sai para comprar pão antes de escurecer. Seu vizinho, Abu Ahmad, o vê saindo de casa e os dois começam a andar juntos.
Fonte:
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3808675-EI6622,00-Conto+convidado+Danos+Colaterais.html
segunda-feira, maio 25, 2009
ESTATÍSTICAS
Como ele é mais velho que eu, ele me disse que, depois de cada guerra, os iraquianos perdem um pouco da boa educação, e eu acho que ele está certo.
E hoje eu recebi um e-mail com algumas estatísticas muito interessantes que foram colocadas juntamente... e eu pensei que essas estatísticas serão uma ótima maneira de mostrar meu ponto de vista.
1,000,000 viúvas de acordo com a estatística publicada pelo Ministério de Mulher em 2008.
4,000,000 órfãos ( estimável pelo Ministério de Planejamento, a média da família iraquiana é de 4 – 6 filhos)
2,500,000 assassinados ( de acordo com a estatística do Ministério de Saúde e a Medicina Legal ( necrotério) até dezembro de 2008).
800,000 desaparecidos ( de acordo com o Ministério de Interior até dezembro de 2008)
320,000 prisioneiros nos E.U.A. e nos presídios do governo ( nos E.U.A cerca de 120.000 prisioneiros, e de 120,000 nas prisões).
4,500,000 refugiados fora do Iraque ( de acordo com o Ministério Iraquiano de Imigração e Refugiados).
76,000 casos de HIV ( de acordo com o Ministério Iraquiano de Saúde), o número era de 114 casos antes da guerra.
40% dos iraquianos estão abaixo da linha da pobreza ( de acordo com as estatísticas do Ministério dos Direitos Humanos do Iraque).
126 empresas estrangeiras de segurança ( registrada no Ministério de Interior do Iraque).
43 milícias armadas ( registrada no Ministério de Interior e no Ministério da Defesa).
Bom, é realmente algo assustador. Examine bem os números dos órfãos, das viúvas, dos assassinados e os desaparecidos e você certamente entenderá porque eu disse que teremos uma crise social.
Que Deus esteja com você.
Fonte :
http://last-of-iraqis.blogspot.com/2009/05/statistics.html
quinta-feira, março 19, 2009
Por: Sinan Antoon
Por Sinan Antoon, poeta nascido no Iraque e tradutor. Publicou o romance I`jaam: An Iraqi Rhapsody, que foi traduzido para o inglês, alemão, norueguês e publicado no Brasil pela Editora Globo como “Morrer em Bagdá”. Antoon retornou a Bagdá em 2003 como um membro de InCounter Productions, como co-diretor e produtor do documentário “About Baghdad”, sobre a vida dos iraquianos no Iraque pós-Saddam ocupado.
Fonte:
http://www.icarabe.org/CN02/artigos/arts_det.asp?id=178
quarta-feira, fevereiro 25, 2009
Poesia
Bagdá ...Oh Bagdá
por Khalid Tailche
Destruíram meu país
e nas suas ruínas
implantaram o terror
Araram a terra com as bombas
e irrigaram suas diabólicas ervas
com as lágrimas das viúvas
Bagdá...
terra da alegria e da música
terra de ciência de literatura
tornou-se a terra de lamúria
Suas portas estão abertas
para o vento amarelo
Suas ruas são refúgios
para os lobos frenéticos
e os bêbados de sangue
Bagdá, Oh Bagdá
roubaram sua riqueza
e expulsaram seus filhos
e não deixaram em ti
pedra em cima de pedra
Tivemos paciência
seja paciente
Para cada doença há remédio
e para cada criminoso há destin
Fonte:
http://www.icarabe.org/CN02/historia/pron_det_poesias.asp?id=45
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Cultura
O chá, chamado de Chai no dialeto iraquiano, nasceu na China e passou pelo países árabes no seu caminho para a Inglaterra, onde no século XIX começou a fazer parte da cultura inglesa. Com as invasões inglesas, a tradição do chá da tarde começou seu caminho de volta para o oriente. Depois da longa invasão turca, começou a invasão britânica no Iraque em 1914. O hábito de tomar o chá preto, que apesar do nome tem a cor avermelhada, se concretizou. As casas de chá até hoje tem o nome de gahwa (Café) no capital Bagdá e no sul do Iraque, e de chai-khana (casa de chá) no norte do Iraque. Tanto a palavra chai-khana quanto a palavra estican ( xícara de chá) tem o nome turco. Assim o chá é oferecido para as visitas como um sinal de hospitalidade.
O modo de preparação do chá tem o nome de takhdir que se refere ao processo de fermentação. Logo depois que a água ferve no próprio bule de chá, o chá preto é adicionado e o fogo é abrandado por alguns minutos para só então desligar-se o fogo. Depois de alguns minutos o chá é servido nos esticans, que são feitos de vidro transparente e bem fino e as vezes decorados com linhas douradas, o que permite ver a cor e sentir o calor do chá nas pontas dos dedos antes de tomá-lo. E como acontece em várias culturas, o processo de preparação do chá trasmite uma certa harmonia e tranqüilidade. Nas casas, o chá é tomado quase em todas as refeições, alem do chá da tarde.
O mais interessante é como o povo absorve os costumes importados e os reproduz de uma forma nova. As chai-khanas ou gahwa se tornaram o lugar de encontro onde os homens bebem o chá e fumam enquanto conversam, jogando gamão ou dominó. Alguns desses lugares se tornaram bem conhecidos por promoverem encontros dos poetas e dos cultos e por ser um espaço de debate. Mesmo com a transformação da estrutura sócio-cultural eles resistem ao tempo mantendo seus braços abertos sobre aqueles que procuram um oásis para um descanso ou uma diversão.
segunda-feira, janeiro 19, 2009
Bader Shaker Al-Sayyab
A Canção da Chuva
Seus olhos são dois bosques de palmeiras na aurora ou duas varandas de onde a lua se afasta.
Quando seus olhos sorriem, as folhas de uva brotam
e as luzes dançam como as estrelas
num rio encrespado pelo remo no despertar da aurora,
brilhando nas profundidades dos seus olhos
e se afogando em tristeza e ternura,
como o mar dominado pelas mãos da noite,
com seu calor de inverno, tremor de outono ,
a morte, o nascimento, e as trevas
e a luz desperta dentro da minha alma o tremor do pranto
é um êxtase selvagem que abraça o céu
como o delírio de uma criança que teme a lua!
Como se o arco-íris fosse bebendo as nuvens
e gota a gota as vertessem em água da chuva O riso dos meninos gorjeia nas parreiras
e quebra o silêncio dos pássaros nas árvores
A canção da chuva
Chuva...
Chuva...
Chuva...
A tarde bocejou e as nuvens ainda
derramam suas lágrimas pesadas.
Como um menino
a balbuciar antes de dormir, querendo sua mãe
Há um ano, quando acordou, não a encontrou e insistiu
Diziam-lhe:
“voltará depois de amanhã,
Sem falta voltará”
e sussurrará aos amigos que ela está lá
ao pé da colina dorme
num sonho eterno
servindo-se da terra e água da chuva,
como um pescador tristonho a recolher a rede
amaldiçoando as águas e o destino,
espalhando o canto onde se eclipsa a lua
Chuva...
Chuva...
Você sabe que tristeza provoca a chuva?
e como as calhas soluçam quando ela cai?
e como faz o solitário se sentir perdido?
Sem fim, como o sangue vertido, como os famintos,
como o amor, como os meninos, como os mortos...
Isto é a chuva!
Suas pupilas me levam com a chuva,
e através das ondas do golfo, os relâmpagos banham
a costa do Iraque com estrelas e conchas,
querendo nascer como o sol,
mas vem a noite e os cobrem com um manto de sangue.
Grito ao golfo : “ Oh! golfo,
Oh doador das pérolas, de conchas e ruínas!”
E me volta o eco
como um soluço
“Oh! golfo
Oh doador das pérolas, de conchas e ruínas ..!”
Quase ouço o Iraque guardando os trovões
armazenando os relâmpagos nas planícies e nas montanhas,
e quando se afastam, os homens acabam com o resto.
O vento de Thumod não deixou
qualquer vestígio no vale.
Quase posso escutar as palmeiras bebendo a chuva,
as aldeias gemem,
e os imigrantes lutam com os remos
e as velas, os temporais do golfo e os trovões, cantando:
Chuva...
Chuva...
Chuva...
No Iraque há medo e fome
Os grãos são espalhados na época da colheita
para satisfazer os corvos e os gafanhotos,
esmagando os celeiros e as pedras
uma moenda que gira nos campos... e ao redor dela, homens
Chuva...
Chuva...
Chuva...
Quantas lágrimas derramamos na noite da partida
E percebemos com medo
Que seriamos acusados de provocar a chuva.
Chuva...
Chuva...
Desde que éramos pequenos, o céu
se cobria com as nuvens no inverno
e caíam os cântaros da chuva,
e a cada ano, quando a terra se cobria de ervas,
sentíamos fome,
nunca passou um ano que o Iraque estivesse sem fome,
Chuva...
Chuva...
Chuva...
E em cada gota de chuva
vermelha ou amarela da cor das rosas,
cada lágrima dos famintos e dos nus
e cada gota derramada de sangue dos escravos
é um sorriso que espera uma nova boca
ou um mamilo que floresce na boca do recém nascido
no jovem mundo do amanhã, o doador da vida!
Chuva...
Chuva...
Chuva...
o Iraque será coberto de ervas com a chuva...
Grito ao golfo : “ Oh! golfo,
Oh! doador das pérolas, de conchas e ruínas!”
e me volta o eco
como um soluço
“Oh! golfo
Oh! doador de pérolas, de conchas e ruínas!”
O golfo espalha seus grandes tesouros
sobre as areias: espuma de sal, e as conchas,
e os restos de um miserável afogado
do imigrante que bebeu a morte
do fundo das águas do golfo,
quando no Iraque há mil víboras que bebem o néctar
de uma flor que o Eufrates alimenta com orvalho.
Ouço o eco
Que se repete no golfo
“Chuva...
Chuva...
Chuva...”
Em cada gota de chuva
vermelha ou amarela da cor das rosas,
cada lágrima dos famintos e dos nus
e cada gota derramada de sangue dos escravos
é um sorriso que espera uma nova boca
ou um mamilo que floresce na boca do recém nascido
no jovem mundo do amanhã, o doador da vida
E caem os cântaros da chuva.
Fonte
المصدر : عن ديوانه " أنشودة المطر " ، ضمن مجموعته الكاملة المجلد الأول ص 474 . دار العودة - بيروت - 1997
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O poeta Bader Shaker Al-Sayyab nasceu na cidade de Jecor localizada no sudeste da cidade de Basrah no sul do Iraque, em 25 de dezembro de 1925. Ele nasceu numa família sossegada que tinha fazendas de palmeiras por muitos anos no sul do Iraque. Ele teve uma infância feliz, mas sua felicidade terminou com o falecimento da sua mãe dando a luz em 1932 quando ela tinha vinte três anos de idade.
Al-Sayyab estudou numa escola primaria de meninos na cidade de Abu El-Khassib. Desde cedo ele começou escrever poesia o que chamou a atenção dos seus professores que o apoiavam para que escrevesse em árabe padrão.
Ele terminou seu estudo secundário na cidade de Bagdá em 1943 e começou a estudou no instituo superior dos professores ( Faculdade de Educação) em qual ele estudo por quatro anos e escreveu seus pomas cheios de saudade. Uma das suas colegas na época era a bem conhecida poeta iraquiana Nazik Al-Malaaika.
Foi preso e desligado da faculdade em 1946 por suas atividades políticas. Depois de pouco tempo foi libertado, mas foi preso de novo em 1948 e 1949, quando perdeu seu trabalho e acabou sendo proibido de dar aula por 10 anos. Passou dias difíceis de pobreza e humilhação. Em1952, por causa da situação política perturbada, fugiu escondido para o Irã e depois para o Kuwait onde ele teve uma vida de refugiado.
Al-Sayyab voltou para Bagdá muitos meses depois onde ele encontrou com seu velhos amigos. No ano de 1954 ele publicou seu poema ( Inshudat Al-Matar) ou A Canção da Chuva numa revista chamada ( Al-Adab ). Depois do seu casamento em 1955 ele começou trabalhar com tradução de poesia inglesa para o árabe. No 1957 ele começou escrever para a respeitada revista libanesa (Poesia) ao lado dos pioneiros da poesia moderna árabe como Adonis, Anis Al-Haag e Jabra Ibrahim Jabra.
Quando a monarquia acabou em 1958, e com a libertação dos prisioneiros políticos, Al-Sayyab sentiu que seu sonho foi realizado, mas rapidamente a disputa interna que tomou conta da sociedade acabou o prejudicando, e então foi demitido de seu trabalho em 1959 quando começou uma nova faze difícil da sua vida. Em 1961 foi preso e libertado no mesmo mês e mesmo voltando ao seu trabalho, sua saúde começou a deteriorar até que foi internado em 1961.
Assim começou sua longa viagem com a doença. Ganhou uma bolsa para Inglaterra, Universidade de Durham, para obter seu doutorado e tratar sua doença, mas sua saúde deteriorou e resolveu voltar para Londres, onde foi internado. No seu caminho de volta passou pelo Paris onde teve outros exames sem resultados positivos, ele acabou voltando para o Iraque e depois para o Kuwait onde ele faleceu por a complicações das doenças em 24 de Dezembro de 1964.
